Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Eu ouvi o Papa

Bruno Vieira Amaral, 12.05.10

Qualquer Papa, e Bento XVI não é excepção, é uma celebridade. A sua visita é um acontecimento mediático. A missa no Terreiro do Paço foi um espectáculo. A televisão adora a fotogenia gregária das multidões e agradece o efeito plástico de movimento das bandeirinhas agitadas. O povo emociona-se com os ajuntamentos (um só corpo, uma só vontade) e o telespectador confunde a mole (que agrega fiéis, curiosos, vips e católicos de grandes eventos) com uma manifestação viva de fé. No meio da celebração televisiva, o homem que não é o actor que João Paulo II foi. Um homem sem o carisma do seu antecessor e, portanto, menos talhado para estas festividades, para o catolicismo emocional dos santinhos e das imagens, para o catolicismo anestésico e invertebrado dos “católicos não praticantes”. O catolicismo de Bento XVI é, como nunca poderá deixar de ser, um elevado desafio moral em consonância com a mensagem de Cristo: o esforço por sermos melhores do que aquilo que somos. É, em primeiro lugar, um repto aos católicos, mas é também uma mensagem para a humanidade (à excepção dos que estão mais preocupados em vociferar contra os enfeites da Carris). E quem, por pruridos anti-religiosos, não quiser ouvir o que diz Bento XVI, pode ler Pico della Mirandola ou Kant, por exemplo. Eu, que não sou católico, oiço com atenção o que este homem, ex-Ratzinger, tem para me dizer. Quanto ao resto, dispenso o folclore mediático, a masturbação televisiva e a futebolização da crença. Há quem goste. Nada a opor. Façam bom proveito da festa.