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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Pessoa

Tiago Moreira Ramalho, 19.05.10

Hoje o leitor habitual vai ter de se contentar com constantes reproduções de produções alheias, pois a verdade é que a vida está difícil para profissionalismo blogosférico. De qualquer modo, a boa vontade é muita e não queremos deixá-lo sem nada com que se entreter, pelo que recorremos a Pessoa. Permita-me um pensamento profundo: Pessoa, mais que um genial poeta e um brilhante prosador, foi um pensador como tivemos poucos, apesar de esta vertente ter sido sempre ofuscada pelas duas anteriores. Já está. Veja bem (lá no Arquivo Pessoa tem as referências bibliográficas, caso as queira):

 

«Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.»

 

 

«Produto de dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica, seguidos de um século de pseudo-educação confusa, somos as vítimas individuais de uma prolongada servidão colectiva. Fomos esmagados [...] por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre-pensamento era impedir uma procissão de sair, de maçãos para quem a Maçonaria (longe de a considerarem a depositária da herança sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbonária ritual. Produto assim de educações dadas por criaturas cuja vida era uma perpétua traição àquilo que diziam que eram, e às crenças ou ideias que diziam servir, tínhamos que ser sempre dos arredores...»