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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Receitas de Meia-Nigella

Bruno Vieira Amaral, 20.05.10

Quando chego aos objectos de culto (“estes gajos que ninguém conhece são mesmo bons”) já os encontro na fase de fenómeno de massas (“os gajos venderam-se”) ou, se as coisas correrem bem, na curva descendente que os devolve à condição de objecto de culto com o bónus da nostalgia (“mesmo quando se vendiam os gajos eram bons”). Quem não quer acabar como mascote esfarrapada dos talibans do autêntico, dos que não se vendem, vende-se. Os outros, poucos, aguardam serenamente o processo de luiz-pachequização ou antonio-ganchamento e rezam para que os jovens do futuro ainda se preocupem em fazer relíquias dos vencidos. Mas isto não é sobre literatura, é sobre a forma como a senhora Nigella Lawson se abeirou do meu campo de visão e do meu proto-paladar, que os dois sentidos aqui caminham juntos. Como sempre, cheguei tarde ao objecto. Já meio-mundo a elogiara, e como qualquer especialista em devoções sabe, o escárnio e o vilipêndio acicatam mais o desejo de veneração do que mil esporas de elogios, por genuínos que sejam. Quem é que vai empregar o seu precioso tempo com a Nigella quando sabe que o mais provável é chegar à mesma conclusão que todos os outros? É como se o marido abandonado voltasse a casa e dissesse: “Se não és minha, vais ser de toda a gente”, e andasse para aí a gabar-se da múltipla inexclusividade. Há cultos que pedem multidões (Fátima, o Benfica, inaugurações do Ikea) e há outros que exigem recato e meditação. Pensei que o culto à volta da Nigella fosse deste último género mas assim que a vi a chupar os dedos num programa de televisão percebi que estava enganado. Então, na solidão densamente povoada do peregrino, parti para a Nigella. Cheguei ainda há pouco e o tempo aqui está bom. A Nigella tem um corpo todo ele Cântico dos Cânticos, cedros do Líbano e tal, de uma opulência mediterrânica de carnes.

 

 

Vou no Queijo Mozzarella em Carrozza, uma interessante reflexão sobre a condição do queijo na sociedade italiana. “Em carrozza” significa “num recipiente”, mas se disséssemos “Queijo Mozzarella num recipiente” a coisa perdia a graça e talvez nos sentíssemos tentados a levar o queijo para um centro de análises clínicas. Assim, em italiano, temos vontade de o levar a passear pelos canais de Veneza, qui c’est triste Venise, aux temps des amours morts, de discutir os romances de Calvino, o Italo, entre outros assuntos mais do agrado do queijo, como a levedação. A autora garante que este conto está algures entre “pão frito, torrada de queijo e rabanadas”, ou seja, literatura neo-realista do pós-guerra em ambiente de festividades natalícias, e insurge-se contra a tradição: “Não vou fazer de conta que esta receita é tradicional.” Não é. Nigella apropria-se da tradição para nos oferecer algo novo e com malaguetas.

 

Fiambre com Coca-Cola

 

Nigella aventura-se no auto-plágio: “Esta receita é do meu livro How to Eat, mas com algumas alterações.” Não, isto é mais O Toldo Vermelho da culinária. “E não, não vou pedir desculpa por copiar, ou melhor, reformular esta receita pela simples razão de que insisto que a prove.” Nós aprovamos. “A bebida doce e gasosa tem tudo a ver com o espírito da carne assada.” O espírito da carne assada? Estará Nigella a entrar na mitologia Navajo? O único conselho que retive é “nem pense em usar Coca-Cola Zero!”, com ponto de exclamação e tudo. Oh, Nigella!

 

Jaquinzinhos

 

Rendo-me a Nigella! Jaquinzinhos? “Já praticamente me tinha esquecido da existência de jaquinzinhos até os ver à venda numa peixaria.” É por estas e por outras que eu tenho uma agenda onde registo o nome dos peixes e respectivo número de telefone. “Jaquinzinhos são peixes pequenos”, “normalmente são carapaus pequeninos”, embora em cativeiro possam ser encontrados alguns do tamanho de lontras e outros com a voz do José Carlos Malato. Depois, vem a eco-política: “Eu sei que há uma geração mais naturalista para quem a ideia de comer peixinhos-bebés inteiros pode ser pouco tentadora.” A minha avó sempre me disse que comer jaquinzinhos era um acto essencialmente imoral, sobretudo quando acompanhados de arroz de tomate. Mas há momentos em que o homem é apenas um elo na cadeia alimentar, um “mamífero de curta duração”, como diz Steiner, e nessas alturas já se sabe que é capaz de qualquer coisa, incluindo comer hambúrgueres do Lidl e jaquinzinhos, enquanto declara que o aumento do IRS não terá efeitos retroactivos.

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