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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Trabalhar para viver

Rui Passos Rocha, 21.05.10

Ainda não li este texto do Tony Judt, mas a tese dele (a menos que a tenha mudado no último ano) é de que o Estado Social europeu continua a ser preferível ao modelo americano, que nenhum deles está a falir e que o futuro próximo passa por uma convergência entre ambos. É provável, se bem que do lado de lá a divergência entre o bloco democrata e o republicano (sobretudo populista) bloqueie o avanço.

A Europa, que não quer perder a estabilidade do Estado Social, está disposta a flexibilizar-se. Já não sonha com um crescimento económico imbatível, nem com a liderança geopolítica; interessa-lhe apenas manter os direitos laborais e sociais garantidos. Sem eles haverá menos individualismo, o trabalho voltará a ser central e a instabilidade reabrirá brechas diplomáticas. A Europa coesa só o será enquanto for suficientemente próspera.

Assegurando uma segurança social, a Europa esvaziou a centralidade da profissão e escancarou as portas ao lazer. Trabalha-se para viver; não se vive para trabalhar, ao contrário de noutros pontos do globo. A previsibilidade da sobrevivência garantida - por essa segurança social - gerou um consenso em torno da social-democracia; dos europeus, só uma minoria é dada a projectos utópicos (e deles, quase todos advogam ainda mais solidariedade).

Sendo o lazer tão central, não admira que para muitos o trabalho seja apenas um ganha-pão. Nem todos fazem do que mais gostam a sua profissão; como têm mais tempo livre (e pouca preocupação quanto ao futuro, porque já não pensam na sobrevivência imediata) é natural que o ocupem realizando, aí sim, os seus principais objectivos. Não é "infantilidade" ver a profissão "como uma coisa chata que se tem de fazer para ganhar a vida". Pode até ser sinal de que, finalmente, para muitos a vida passou a ser muito mais do que trabalho.

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