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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Nem tudo o que reluz é ouro

Priscila Rêgo, 24.05.10

Concordo com os alemães e com os economistas em geral. Portugal deve diminuir o seu défice orçamental. Durante vários anos a redução do défice foi apresentada como uma imposição de Bruxelas, sem que ninguém se lembrasse de dizer que défices implicam dívida e que esta dívida terá, mais cedo ou mais tarde, de acabar por ser paga. A redução do défice não era apenas uma exigência legal das instituições europeias: deveria ser também uma prioridade de quem, mesmo à Esquerda, pretendia ter um Estado sustentável. Os interesses europeus e portugueses não entravam necessariamente em conflito.

 

Mas convém lembrar que, agora como antes, a coincidência de interesses é apenas parcial. Neste momento, os alemães querem défices baixos porque essa é a melhor maneira de garantir que o valor do euro não é corrompido pelo despesismo de um país irresponsável. Os mercados financeiros, por seu lado, apenas querem que Portugal não tenha problemas de pagamento da dívida. Para estes dois grupos, o défice é um objectivo em si, independente da forma de lá chegar. A loiça suja tem de sair da cozinha. Mas atirar os pratos com gordura pela janela vale tanto como usar esfregona e detergente.

 

Para os portugueses, a situação é diferente. Enquanto os alemães olham para o Estado português como um meio de atingir um fim (estabilidade da moeda), para nós as prioridades invertem-se: é o Estado que é um meio para que cada um de nós possa atingir os próprios fins a que se propõe. E a subida de impostos vai contra esta ideia porque sacrifica os rendimentos dos portugueses às necessidades de financiamento do Estado. Para nós, a diminuição do défice deve ser o subproduto da redução da despesa. Por isso, aconselha-se cautela nos próximos anos. Os padrões de exigência pelos quais vamos avaliar os nossos políticos devem ser ainda mais rigorosos do que fasquia imposta pelas instituições europeias e mercados financeiros. Aquilo que para Bruxelas é uma iguaria suculenta pode ter um travo agridoce para os portugueses.