Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

João de Brito Batista Aires Fitas

Bruno Vieira Amaral, 04.06.10

Fins de Maio, princípios de Junho trazem-me à memória os dias da cortiça com o meu avô. O corpo dele, pequeno e ágil como o de um felino, a trepar pelo sobreiro, o machado cravado na árvore, os pés nus, o suor que lhe escorria pelo rosto, o descanso a meio da manhã, o movimento da maçã de Adão enquanto bebia o vinho de uma liturgia profana de trabalho e esforço, o Ti’ Jaime, com menos anos mas mais pesados, que ficava lá em baixo e iniciava o dia cuspindo a palma das mãos e invocando auxílios divinos, “Deus m’ajude”, atacando o sobreiro com golpes precisos de cirurgião natural, o almoço, um tomate migado e salgado pelas mãos rudes do meu avô, aquele sabor que mo lembra tanto, como se lhe beijasse ainda as mãos, a água fresca da tarde bebida de um cocho, os estrangeiros de máquinas fotográficas em punho fascinados pela destreza dos homens antigos, pela beleza arcaica da actividade de despir uma árvore da sua casca, o fim do dia a descarregar as pranchas, a paragem num café de beira de estrada para mastigar uma bifana, saborear uma cerveja, enganar o cansaço, agradecendo ao Deus do Ti’ Jaime a resposta silenciosa, mas inegável, à prece matinal, o regresso a casa, os dois sentados a ver a bola, o repouso merecido. Ver o meu avô trabalhar naqueles dias quentes foi a herança que ele me deixou. Morreu há cinco anos, no final de Julho, depois de tirada toda a cortiça.  

3 comentários

Comentar post