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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Quem vai ganhar o Mundial?

Priscila Rêgo, 16.06.10

O Brasil é um eterno candidato. E a Espanha tem um futebol que já não se via há muito tempo. Tal como o meio campo: ter Xavi, Iniesta, Fabregas , Xabi Alonso e David Silva ao mesmo tempo numa só equipa não é só pornograficamente escandaloso; é, parafraseando o Francisco Louçã, um insulto para todos aqueles que vivem com menos de 500 euros por mês.

 

Mas, banalidades à parte, a resposta é desoladora: simplesmente não sabemos quem vai ganhar o Mundial.

 

Esta dificuldade em prever o desfecho do certame não tem propriamente que ver com a nossa ignorância de algum elemento do jogo ou particularidade das equipas em prova. No painel do Expresso, por exemplo, é frequente jornalistas desportivos fazerem previsões menos certeiras do que políticos de segunda categoria. Perceber mais de futebol não se traduz directamente numa melhor capacidade de previsão do resultado de um jogo em concreto. O Gabriel Alves não está mais habilitado para prever quem ganha a final do que um matemático para adivinhar o número que sai de um lançamento de dados.

 

Isto acontece porque o futebol é um jogo caótico. Uma mudança subtil das condições iniciais pode alterar de forma drástica o resultado final. Como se diz em linguagem técnica, a bola é redonda e são onze de cada lado. Um ressalto pode ditar um golo prematuro, que pode por sua vez impulsionar uma equipa para uma grande época. Não se riam: em 1992, a UEFA foi buscar os dinamarqueses à praia (literalmente) para ocuparem o lugar da Jugoslávia. Deu no que deu.

 

Não se extrai daqui que a sorte faça uma equipa. Nem toda a sorte do mundo pode levar o Sporting à final da Liga dos Campeões. Mas, num jogo em que a expressão das qualidades de uma equipa se faz por portas tão travessas, a sorte desempenha um papel não negligienciável. Este factor é muito menos importante num desporto menos complexo em que menos forças interagem; mas o futebol não é atletismo.

 

Isto é um truísmo? Bom, se fosse tão óbvio não ouviríamos tantos comentadores explicarem derrotas e vitórias com a “distância das duas linhas”, as “triangulações entupidas pelas subidas dos laterais” e “a incapacidade do médio tampão de cortar os passes no centro do terreno”. Ainda há dois anos, o PhD da bola, Rui Santos, explicava que Scolari devia abandonar a selecção. Razão? Não conseguiu pôr a equipa a fazer pressão no meio campo, algo que a Alemanha teria aproveitado para vencer Portugal por 3-1. Não lhe passou pela cabeça que dois golos de bola parada pouco teriam que ver com pressão no meio campo.

 

Esta ideia tem aplicações um pouco mais vastas do que apenas no futebol. Em ciência política, sociologia e psicologia são comuns as explicações profundas e complexas para os factos mais banais. Conjugam-se duas tendências: quem ouve quer uma explicação pormenorizada que permita encontrar culpados e apontar soluções; quem fala não é capaz de admitir que muitos anos de formação podem por vezes não ser mais úteis na interpretação da realidade do que uma mera Curva de Gauss. É difícil aceitar que por vezes o silêncio é sinónimo de sabedoria

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