Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Desculpem lá este bocadinho; isto já me passa

Rui Passos Rocha, 30.03.10

«Valho bem dez eleitores de Croisset», escreveu um dia Flaubert, anarquista convicto que pouco se ralava com a democracia dos iluminados. Convenhamos que não é assim tão incomum pensar-se tal coisa: por cá, as gentes do centro e Sul condenam o arcaísmo dos nortenhos, esse povo rude do campo que tem na sala uma pintura chinesa da Nossa Senhora de Fátima; os do Norte acham os "mouros" uns moderninhos, uns progressistas da treta que estão a esvaziar a tradição e a identidade nacional. Os intelectuais, esses, acreditam que um povo que mama os noticiários da TVI, o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias não irá a lado nenhum. Poucos destes ousam dizer em público que os outros são uns burros; mas muitos pensam que eles deviam ser inimputáveis ou que o seu voto devia pesar menos.

 

Com três anos já aprendia o alfabeto grego; aos oito conhecia os principais clássicos da Antiguidade e a História da Inglaterra, dominava latim e álgebra (ah, e aos 20 teve uma depressão). John Stuart Mill é um exemplo de precocidade e de alguém cuja opinião política era, aos oito anos, certamente superior à de muitos adultos. Há poucos casos como este; mas não são poucos os de adolescentes a quem justamente deveria ser permitido votar. Porque não? Se instituímos um limiar arbitrário (18 anos), poucos argumentos não arbitrários temos para o defender. Então, se numa sociedade plenamente justa este tipo de adolescentes deveria poder votar, qual seria a melhor solução: exames de admissão? E quem faria os exames? Ou a idade mínima para votar deveria ser diminuída? Mas isso incluiria adolescentes sem consciência política, certo? E exames periódicos de admissão para todos os cidadãos, independentemente da idade, não seriam mais democráticos? Ou a exclusão de "maiores" é, em si e por si, anti-democrática? O que é, afinal, a democracia?

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Rui Passos Rocha 30.03.2010

    O meu "ponto" é que, a excluir, é mais justa a exclusão dos desinformados (independentemente da idade) da exclusão dos menores de 18 (porque é plausível que haja adolescentes com mais conhecimentos do que adultos).

    Não excluíndo, o que argumentarão que é mais democrático, mantém-se a justeza da inclusão de - pelo menos - parte dos adolescentes. Mas fica a dúvida: qual o limiar mais justo? 18? 16? 14? 12? E porquê? E se retirarmos limites de idade, permitindo, por exemplo, que crianças ou adolescentes possam votar mediante requerimento (e, eventualmente, fazendo um exame), não estaremos a abrir portas a que os pais coajam os filhos a votar num determinado candidato/partido?
  • Comentar:

    CorretorMais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.